
Passei anos imaginando o dia em que eu pisaria nas areias do deserto na região mais inóspita da América do Sul. A expectativa era imensa: conhecer aquelas paisagens extraordinárias e trazer uma coleção de fotos e histórias para casa. Tinha também aquela ideia meio batida — a clássica narrativa do "vou me reencontrar". Os quatro dias de travessia pelo deserto boliviano, seguindo a rota que liga o Atacama ao Salar de Uyuni, pareciam a promessa perfeita de transformação.

E lá estava eu: cruzando o altiplano num velho Lexus 4x4, sacudindo por um terreno que mais parecia um planeta em formação. O carro rangia como se, assim como eu, também sentisse o peso do tempo.
Fui em busca de um sinal. Uma resposta. Algo que me preenchesse.
Mas o deserto não se importava com nada disso.
A poeira, o calor e o ar seco eram o que preenchia nosso carro. Se acumulavam nos olhos, nos lábios rachados, no fundo do pensamento.
E o deserto seguia imenso, de uma beleza que também tirava o ar.
E então começaram as visões:
Lhamas que me encaravam indiferentes, como se fossem entidades ancestrais.
Centenas de flamingos dançavam em lagoas multicoloridas.
Formações rochosas impossíveis, como esculturas saídas de um sonho surrealista.
Uma ilha de cactos, miragem sólida, flutuando num mar branco sem fim.
Tudo tão eterno que eu me senti provisório.






A cada novo quilômetro, a expectativa de que algo se revelaria.
Que o deserto, depois de tanto silêncio, finalmente me daria uma resposta.
Mas ele continuava mudo. Imenso. Desinteressado.
A linha do horizonte era um truque.
Se afastava cada vez mais, como se risse da minha ideia de chegada.
Não havia destino. Só movimento.
A travessia não preencheu, só tirou.
Tirou certezas. Tirou urgências.
E talvez esse seja o ponto.
Deixar dissipar. Esvaziar.
E então, abrir espaço para o novo.